7 de setembro de 2008

Carlos Nobre - Inpe

Carlos Nobre - Inpe




Meu trabalho como cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), nos últimos 25 anos, tem se ocupado principalmente de entender o clima da Amazônia e o impacto do desmatamento e do aquecimento global sobre aquela região. Neste espaço, além de questões ambientais Amazônicas, brasileiras e globais, vou freqüentemente voltar ao tema com o qual inicio minha contribuição neste blog Globo Amazônia, qual seja sobre o papel de Ciência e Tecnologia (C&T) para a construção de um novo modelo de desenvolvimento.
O modelo de desenvolvimento rural da Amazônia brasileira praticado nos últimos 50 anos, baseado na substituição da floresta por agricultura e pecuária, não trouxe benefícios econômicos e qualidade de vida para a grande maioria da população. O produto agrícola bruto da área de domínio florestal da Amazônia brasileira em mais de 750 mil km² desmatados e pelo menos outro tanto degradado pela exploração madeireira predatória representa menos de 0,5% do PIB brasileiro. É urgente desvincular desenvolvimento de desmatamento e degradação florestal.
Para a maioria dos países, os benefícios mais diretos de C&T são tradicionalmente derivados não de novos conhecimentos, mas da utilização de conhecimento já produzido e que possa ser traduzido em bens e serviços. Assim, até mais importante do que o avanço do conhecimento em si, o principal valor de C&T na educação é a criação de uma força de trabalho a qual possa entender e aplicar conhecimento existente. Capacitação tecnológica tem ajudado a manter o crescimento em grandes países em desenvolvimento como o Brasil. Porém, este paradigma não se aplica ao desenvolvimento sustentável da Amazônia, uma vez que o conhecimento existente e praticado sobre desenvolvimento rural agrícola não se mostrou apropriado para os Trópicos úmidos por apresentar um custo social e ambiental elevado.
Ainda que reconhecendo que grande parte do desafio é político e C&T isoladamente não bastam, deve-se enfatizar a importância central de C&T para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, inclusive a necessidade de novos conhecimentos para valoração e valorização dos serviços ambientais dos ecossistemas. De modo enfático, a Amazônia necessita urgentemente de uma verdadeira revolução científica e tecnológica, revolução esta que deve ser estratégia prioritária e central das políticas públicas de desenvolvimento regional.
Em termos práticos, esta revolução deve criar as condições para “trazer valor ao âmago da floresta”, isto é, desenvolver uma economia de base florestal e de valorização econômica da biodiversidade, a partir de inovadoras “bio-indústrias”. Atualmente, poucas cadeias produtivas baseadas em produtos naturais da Amazônia atingem escala global e beneficiam ampla base social. É perfeitamente concebível imaginar um número de 50 a 100 cadeias produtivas com base na biodiversidade que possam ser desenvolvidas para alcançar mercados globais, gerando ao cabo de 10 a 20 anos uma nova economia de base florestal e de recursos aquáticos a partir da biodiversidade e com forte agregação local de valor via industrialização, bem mais expressiva do que a economia atual baseada na substituição ou exploração destrutiva da floresta.
Para tanto, faz-se necessário criar uma rede de novas instituições de ensino superior, pós-graduação e pesquisa básica e tecnológica avançada, com foco em recursos da floresta e recursos aquáticos. Estes institutos devem ser criados de forma a descentralizar C&T na região e aproveitar a diversidade e potencialidades sub-regionais. Tal rede inovadora de C&T deveria contar com 5 a 6 institutos de tecnologia, agregando cerca de 500 professores, pesquisadores e tecnologistas em cada um deles, multiplicando por três a quatro o número de pesquisadores ativos na Amazônia. Estes institutos — conectados a uma rede de laboratórios associados cobrindo todos os rincões da Amazônia e interligados por tecnologia de informação de ponta — servirão como pólos regionais deste novo modelo de desenvolvimento tecnológico regional, assim como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), nucleou, nas décadas de 50 a 70, o rápido desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira, que é, hoje, uma das mais importantes do mundo. Portanto, o que a Amazônia necessita são vários destes “ITAs”, Institutos de Tecnologia da Amazônia, para nuclear um modelo industrial baseado em recursos naturais inovador para a região.
Num certo sentido, o desafio de criar estes ITAs da Amazônia é maior até do que foi criar o ITA, pois já existia, antes da década de 50, indústrias e escolas de engenharia aeronáutica que lhe serviram de modelo. Este desafio, por outro lado, oferece oportunidade única ao Brasil de inventar um modelo de desenvolvimento para as regiões tropicais baseado em ciência, inovação tecnológica e empreendedorismo. Vencer este desafio é condição para nos tornarmos o primeiro país tropical desenvolvido, utilizando ao máximo o inigualável potencial de recursos naturais renováveis do Brasil, e servindo de modelo para os Trópicos globais.


Blog do Carlos Nobre no Globo Amazônia




Ass: Desmatamento Brasil (desmatamentobr.blogspot.com)

Um comentário:

Victor Gobbi disse...

gustavo, ótimo site, é bom para vc orientar as pessoas a não desmatar e conservar o mundo!!!

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